Nas suas múltiplas facetas, o desenho está presente em praticamente todas as áreas da nossa vida. Quer seja na sua forma mais simples – escrever e rabiscar – quer nas formas mais desenvolvidas, usado directa ou indirectamente: no entretenimento (filmes, banda desenhada, animação 2 e 3D); na engenharia (criação e concepção de produtos, desenho técnico de inúmeras aplicações); nas artes (pintura, escultura, moda, arquitectura) e muitas outras.
Também na ciência, não obstante os meios tecnológicos actuais, a ilustração continua a ser uma ferramenta essencial.
A ilustração científica (IC) tem vindo gradualmente a ganhar terreno em Portugal. Desde alguns pioneiros como o incontornável Pedro Salgado (não só em Portugal mas também lá fora), outros foram trilhando caminho na IC. Independentemente da falta de formação específica, meteram mãos à obra e evoluíram neste campo. Nomes como Marco Correia, Filipe Franco, Nuno Farinha, Diana Marques, Guida Casella, Marcos Oliveira, etc.. foram definindo e formando uma base de ilustradores de qualidade.
Foi enquanto estudante do curso de Design nas Belas Artes que a Lúcia Antunes tomou conhecimento desta faceta do desenho num workshop de IC do professor Pedro Salgado. Desde sempre curiosa e praticante de desenho, ainda que atraída pela bd e ilustração fantástica, ficou fascinada por este género de trabalho. Decide assistir à única formação que existia sobre esta temática – curso no Instituto de Artes e Ofícios, ministrado pelo mesmo professor. Mais recentemente, abriu o Mestrado em Ilustração Científica no ISEC, com o qual a Lúcia completou a sua formação.
Apesar de trabalhar como designer, a atenção de Lúcia Antunes tem cada vez mais vindo a convergir para a IC, e ela própria pensa dedicar-se integralmente a esta área. Considera que existe muito para desenhar por esse mundo fora, com novas espécies a serem identificadas e com outras em riscos de extinção.
Não só há uma enorme variedade como podem surgir necessidades específicas, por exemplo representar uma espécie endémica ou em risco de extinção. Neste caso a IC pode servir para promover junto da população a biodiversidade da sua zona. Os clientes podem ser museus, editoras, jardins zoológicos, universidades, entre outros.
O aspecto em que a IC difere das restantes áreas criativas é na questão da objectividade, na eliminação da ambiguidade. Aqui, para além da visão específica do artista, pretende-se o rigor da informação. A IC é a expressão visual da comunicação para a ciência, logo há algumas regras que forçosamente têm de ser mantidas. Desde logo as referências. Sempre que possível, o ideal é ter presente o modelo da representação. Desta forma, as noções de volumetria, os detalhes e pormenores, bem como as relações entre as diferentes estruturas constituintes são representadas de forma mais fidedigna. Quando tal é impossível, há que recolher referências, quer seja através de fotografia (de preferência tiradas pelo próprio), ou através de fontes indirectas, como por exemplo em livros ou pela consulta a especialistas na matéria.
Posto isto, passa-se aos esboços. Desenho atrás de desenho no intuito de analisar e compreender as formas passíveis de representar objectivamente o modelo. Quando fica estabelecida a abordagem que se pretende, desenha-se um “preliminar”. Este serve como primeira versão a apresentar ao cliente, que será sujeito a correções e ajustes caso se considere necessário. Após isto parte-se para a “arte final”. Consoante o que se pretende representar, há técnicas mais indicadas, mas pode-se usar de tudo. Os meios tradicionais são preferidos por muitos ilustradores pela sua plasticidade. Abrangem desde a tinta da china, ao “scratchboard”, grafite, aguarela ou técnicas mistas. No entanto, podem ser usados meios digitais. O importante é que a ilustração seja rigorosa e represente o modelo com as suas estruturas, cores e formas, de maneira clara e inequívoca.
Sem preferência por determinado tipo de objecto de desenho, é na variedade que a Lúcia gosta de se aplicar, quer seja fauna ou flora. E já tem um conjunto de trabalhos de monta: objectos inanimados, seres marinhos, plantas e recentemente um trabalho que lhe ocupou os últimos 2 anos – os morcegos de Portugal. São 27 espécies que por cá andam, a maioria desconhecida de todos nós e 9 delas em risco. Meticulosamente representados no seu mais ínfimo detalhe, cada pêlo, cada protuberância da textura da pele é alvo de minuciosa atenção. Aos desenhos mais elaborados acrescentam-se outros que mais simples e esquemáticos servem para indicar pontos relevantes, mostrar as estruturas do seu corpo, ou outros detalhes que nos ajudam a compreender e conhecer exaustivamente estes seres.
Este trabalho resultou num guia dos morcegos de Portugal, coisa que até à data não existia. Juntamente está a ultimar uma exposição – inaugurou no dia 28 de Fevereiro, no Palácio D.Manuel em Évora e ficará patente até dia 31 de Março, que aconselhamos a visitar.
Podem verificar os trabalhos de ilustração científica em:
http://cargocollective.com/luciaantunes/Mixed-media
E o portfolio geral da Lúcia Antunes em:








